quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Para reduzir criminalidade, governadores matam as estatísticas

Segurança

Anuário Brasileiro de Segurança Pública critica falta de transparência nos dados fornecidos pelos estados. Rio, Minas Gerais, Espírito Santo, Amapá e Santa Catarina estão entre os que têm dados menos confiáveis

Cecília Ritto e João Marcello Erthal
Policiais do Bope recolhem fuzis apreendidos pela manhã na favela da Rocinha Policiais do Bope recolhem fuzis apreendidos pela manhã na favela da Rocinha (Wilton Júnior / AE)
“O Brasil não tem a cultura política da transparência. Vários estados não enviam dados completos para o sistema nacional", afirma Renato Lima
O Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira, mostra que alguns estados da federação estão repassando estatísticas relativas à segurança diferentes da realidade dessas regiões. O resultado prático dessa falha é o número oficial de crimes ser, no registro oficial, muito menor que a incidência real de delitos. É o caso, por exemplo, de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro. Segundo o levantamento, os três precisam investir com urgência na melhoria dos dados. Por causa dessa deficiência nos registros, a qualidade e a credibilidade das informações sobre a segurança nesses estados foi considerada precária. O estudo foi elaborado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, baseado em dados de 2009 e 2010, e está em sua quinta edição.

Secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança, o sociólogo Renato Lima vê na tradição brasileira de falta de transparência a origem das distorções na prestação de contas pelos gestores públicos. “O Brasil não tem a cultura política da transparência. Vários estados não enviam dados completos para o sistema nacional. Amapá, Santa Catarina e Espírito Santo estão entre eles. Alguns dados correspondem a só 50% do total de ocorrências policiais”, explica.

No Rio de Janeiro, o pesquisador Daniel Cerqueira, do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), pôs em xeque as divulgações do governo do Rio, alardeadas por Sérgio Cabral, sobre a redução no número de homicídios. Em Minas Gerais, os dados publicados nas edições anteriores do Anuário representam 74% dos que foram oficialmente publicados pelo governo do estado. A pesquisa mostra ainda a existência de dificuldades comuns em todo o país: os registros são fragmentados por não seguirem uma classificação única. Outro agravante é a falta de dados sistemáticos sobre registros e ações das Polícias Federais.

Apesar de o Anuário mostrar reduções de alguns crimes, como uma diminuição de 1.049 homicídios no Brasil entre os anos de 2009 e 2010, as taxas de criminalidade são altas no país. As informações da pesquisa revelam um investimento vultoso, porém mal feito, na área da segurança. O Brasil gastou 47,5 bilhões de reais apenas com segurança pública em 2010. Isso representa um crescimento de 4,4% em relação a 2009. A tendência de aumento dos investimentos nesse setor se explica pela injeção de 9,7 bilhões de reais no último ano.

Gastar muito é muito diferente de gastar bem. E os recursos públicos são consumidos em procedimentos e em uma máquina pública arcaica. “Com relação aos gastos, há um vício de origem, um modelo de segurança pública não compatível com o momento do desenvolvimento atual do Brasil. O Código de Processo Penal é dos anos 40, a lei que cria o inquérito policial é de 1871. A Constituição de 1988 mexeu pouco nas estruturas responsáveis pela segurança e a Justiça Criminal. A Agenda de modernização legislativa continua em aberto”, afirma Lima.


O Brasil destina 1,36% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à segurança pública, o que representa 9,27% da arrecadação de impostos do Brasil. Esse percentual supera o da França, onde, em 2008, foi investido 1,3% do PIB nessa área. O volume gasto, no entanto, não tem correspondência prática: as taxas de criminalidade dos países europeus são consideravelmente menores do que as do Brasil.

Apesar de São Paulo ter reduzido o seu investimento em segurança - despendeu 3 bilhões de reais a menos de 2009 para 2010 -, é considerado um caso de sucesso na redução de números de homicídio pelo secretário executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima. Os gastos com a segurança incluem também a quantia investida na Defesa Civil. O Rio de Janeiro que está acostumado a conviver com catástrofes ambientais, sobretudo ligadas a deslizamentos de terra, teve o investimento reduzido em 10%- saiu de 136 milhões para 121 milhões.

A pesquisa também mostra que a sensação de segurança dos brasileiros é pequena. Mesmo se as taxas de criminalidade fossem menores, a população não se sentiria segura. Isso é explicado pela falta de confiança na Justiça Criminal e na Polícia do país. A corrupção e a violência são pontos desfavoráveis para a imagem da Polícia, segundo o Anuário. O resultado prático dessa percepção popular é que quase metade dela não procura a instituição após sofrer algum crime. Quanto ao judiciário, o sentimento não é melhor: existe a sensação de que juízes absolvem os réus na maioria das vezes e de que a legislação penal é branda.
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