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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A bobagem monumental sobre a doença de Lula: tratam de modo mítico até o tumor


 Em 31/10/2011
Acho que, pela primeira vez, Lula experimenta uma reação adversa — ainda que bastante leve e ainda que lhe queiram puxar o saco — decorrente da mitologia que criou em torno do próprio nome, com a ajuda, como já disse, de partes da academia, da imprensa, da Igreja Católica e do sindicalismo. É impressionante! A coisa poderia ser simplificada assim: ele não pode nem mesmo ter um câncer, como ocorre com milhões e pessoas. Nele, há de ser uma espécie de predestinação. E o que é pior: os tolos que embarcam nessa julgam estar fazendo jornalismo inteligente, crítico e ousado. A que me refiro em particular?
De todas as coisas cretinas, idiotas mesmo!, ditas sobre a doença que o acomete, a que ocupa o topo é aquela que diz mais ou menos o seguinte: “Vejam que ironia! Lula foi ter câncer justamente num órgão associado à fala, que tanta importância teve ou tem na sua militância política”. Sei. Se fosse câncer em outro órgão qualquer, a dita “ironia”, por acaso, seria menor?
Trata-se de uma bobagem fenomenal! Fica parecendo que os deuses do Olimpo, à moda antiga, se reuniram para decidir que destino, punição ou graça dar àquele mortal. Não consta que falar muito predisponha ao câncer, ainda que seja a linguagem do proselitismo, do convencimento, da manipulação, cada um chame como quiser. Tentar encontrar um nexo que seria, sei lá, de ordem espiritual entre a vocação do prosélito e um tumor no órgão da fala está no terreno da bruxaria, da feitiçaria, da… bobagem. Não deixa de ser uma forma de mitificação da personagem. Em Lula, nada seria gratuito; tudo seria, de algum modo, motivado; tudo quereria sempre dizer alguma coisa; tudo traria o peso de um simbolismo. Ora, vão plantar batatas!
Recomendo, aliás, cuidado com a constante associação que se está fazendo entre o tumor na laringe e o tabaco e álcool. Ok, a informação tem de ser transmitida, sim. É uma questão que interessa ao público. Mas há algo que vai um tantinho além do terreno da medicina nessa história e que tem de ser considerado. E já não falo mais sobre Lula apenas.
Direito a uma história
Reitero: acho correto que se informem as práticas de risco, que podem predispor algumas pessoas ao câncer. Mas esse debate, vamos dizer, comportamental não é assim tão simples. Longe de mim querer fazer poesia com “coisas que matam”, como diriam alguns. Mas eu realmente não sei se Lula teria sido quem é sem os seus gorós, as suas cigarrilhas, os aspectos, então, pouco saudáveis de sua existência.
Goste-se dele ou não — todos sabem o que penso sobre o político —, o fato é que ele tem uma história que lhe pertence. Cada existência é uma narrativa inteira. Eu sempre me incomodo um pouco quando se tenta escoimar uma vida de suas impurezas — de seus aspectos considerados incorretos —, como se a eternidade espreitasse os viventes não fossem as coisas erradas que fazemos.
Eu me incomodo, em suma, com certa suspeita que sempre paira de que o doente procurou a doença. Sim, que as pessoas sejam advertidas dos riscos etc. e tal, mas que não nos esqueçamos que o maior fator de risco ainda é a aleatoriedade. É ela que, de verdade, nos atormenta.
Ninguém escolhe ter tumor aqui, ali ou acolá. As pessoas todas tendem a escolher a felicidade. Mesmo aquelas um tanto desastradas, cumpre notar, não optaram pelo sofrimento. Eu não gosto muito desse dedo em riste, sabem? Eu tenho dificuldades com certa caridade intolerante.
Por Reinaldo Azevedo
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